sábado, 22 de junho de 2013

o peso da moeda

Quem irá negar o peso da moeda?

Quando a fome grita e a pobreza aperta,
homem algum aguenta, todo homem se inquieta:
com a barriga vazia e a faca na mão
quero ver quem é que não vira ladrão
pra alimentar a sua filha com um resto de pão...

Certa vez um certo homem me pediu esmola
disse que queria lanche e também uma coca-cola,
disse vir de longe, disse que perdeu a honra,
que morava na rua e - porra! -
que história triste ele começou a me contar.

"Meu sinhô eu venho do Belém do Pará,
não tenho muito a dizer, pois eu não sou ninguém,
não tenho muito a pedir, a não ser alguém
que seja humano e que ouça o seu irmão
em calado desespero, sofrendo da solidão.

Minha esposa não veio, já não está aqui
Deus a tenha em paz, também quero partir...
Mas não me mato não, pois é coisa de fracote
e eu sou bem forte meu sinhô, já fui trabalhador
paguei toda minha dívida pro governo traidor
que tirou de mim a minha única filha,
que me transformou numa merda duma ilha.
Um homem sozinho, andando por aí sem rumo,
quando chega a noite no lixo eu sumo.

Uma criatura invisível no meio da sociedade,
às vezes desconfio que isso tudo não é verdade,
só pode ser mentira, falácia, ilusão
como pode um homem adulto ter sua prisão
na própria liberdade que o cerca?
a verdade é que o olho só enxerga
até o ponto em que começa nossa alma,
então vou com paciência, vou com calma
pois sei que minha hora vai chegar...
sei que um dia tudo vai mudar!"

E é nessa hora que o peito se encolhe
diante dos caminhos que a vida escolhe
pra nos mostrar a essência do ser humano
pra nos mostrar a indecência de ser mundano,
não poder alterar a pirâmide de sangue
ou a letargia dessa massa de gente gritante.

Mas sou só uma peça nessa grande construção,
um pequeno classe média buscando explicação
por que é que sou diferente de tantos?
por que é que alguns rezam para santos
para ter aquilo que é nosso direito?
para viver uma vida com o mínimo de respeito?
uma manta, um cobertor, um prato de comida,
uma família para aguentar a dor da vida.

A vida é foda, a batalha é longa.
E quem irá negar o peso da moeda?

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